sábado, 21 de julho de 2012

Minha escola…minha vida!

Durante minha infância e adolescência vivi grandes aventuras que me levaram a enxergar a vida de outra maneira. Nasci com um coágulo sanguíneo no lado esquerdo do cérebro. Parte essa que, entre outras funções, trabalha a parte lógica do meu ser. Isso significa que minha vida se transformou um inferno no dia em que conheci a matemática e a criatura mais amedrontadora do universo criada pelo homem, a tabuada.
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Durante os anos iniciais da minha jornada na escola os números eram fantasmas que me assombravam. Somar, dividir, diminuir e principalmente multiplicar eram situações que me levavam a um extremo terror. A lógica não funcionava. Eu não conseguia ver os resultados, as relações entre os números e suas variações. O simples fato em descobrir que 6X9 é igual a 54 não entrava na cabeça e então um mundo de informações invadia meu corpo. A angústia de ser um “burro” diante de meus colegas, que não conseguia ver os resultados explicados pela professora, criaram uma angústia tremenda e eu pensava: “Não consigo encontrar o resultado. Se eu não encontrar o resultado eu vou ir mal na prova. Se eu for mal na prova eu vou rodar. Se eu rodar eu vou apanhar em casa. Meu pai e minha mãe não vão aceitar. Eu sou um burro e isso é inadmissível”. O Mundo caiu sobre minhas pequenas costas infantis.
A minha dificuldade com os números me levaram a acreditar que jamais conseguiria desenvolver as soluções propostas em sala de aula e então eu ficava para trás diante da turma. A final, porque se esforçar em resolver se eu estava fadado ao fracasso matemático? Parece pouca coisa, mas no mundo infantil isso era grande demais. Os outros conseguiam menos eu. Será que sou uma criatura inútil no mundo? Isso me fazia sofrer demais.
Minha professora tentava me ajudar. Meus colegas me explicavam uma, duas, três vezes e nada. O produto final da soma não chegava à cabeça. Por causa de fatores gerados pelo coágulo sanguíneo e pelas emoções destrutivas memorizadas no cérebro, eu desenvolvi a expressão corporal da dissonância da vida. Eu tive convulsões. Saiba Mais sobre a Convulsão.
cerebroO corpo entrava em choque, a boca secava, a febre subia e eu desmaiava. Não foram poucas vezes em que fui juntado por colegas sem qualquer reação. Minha mãe correu comigo muitas e muitas vezes, como um anjo carregando nos braços um corpo que nunca sabiam se voltaria do estado da inércia. Cada desmaio um susto, cada susto um coração de mãe partido. Viver era uma luta diária, pois nunca sabia quando o mal da convulsão chegaria e assolaria minha mente e meu corpo.
Por causa de minha enfermidade eu precisei buscar auxílio médico. E um grande médico neurologista me auxiliou. Sua calma, sua segurança e seu conhecimento me ajudaram a procurar uma cura para meu corpo revoltado com a matemática. mas ainda precisava trabalhar as emoções.
Durante a primeira e a segunda série passar de ano foi sempre um enorme desafio. Mas na terceira série as coisas pioraram. Só de pensar em prova ou teste de matemática minhas emoções se elevavam, a adrenalina corria na corrente sanguínea e o monstro disforme da matemática vinha até a memória, engessando minha capacidade lógica. A minha cabeça girava e todos os sintomas do pânico vinham a minha frente, olhando aqueles problemas numéricos sem resultado sobre a minha classe. Tudo indicava que logo uma convulsão viria a caminho e assim o era.
Eu era uma criança infeliz. Dentro e fora da sala de aula. As pessoas sofriam junto comigo e muitas vezes vi as lágrimas de minha mãe rolar comigo nos braços. Vi seu desespero, sua dor, e isso me atormentavam ainda mais.
Mas a vida é um grande algoritimo. Um problema sempre possui uma solução e os meios para se achegarem até ele podem ser muitas.
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Minha professora notou meu estresse diante da aplicação matemática. Toda vez que eu me encontrava com ela, minha tensão aumentava e tudo dava errado. Mesmo com seu amor, carinho e dedicação ao me passar o conteúdo as coisas não eram gravados na cabeça. Então ela teve a seguinte ideia. A tensão de fazer os cálculos valendo nota me atordoava. Vou fazer o seguinte: “E se ele fizesse a prova não valendo nota, mas na verdade valendo?”. Ela aceitou o desafio e colocou em prática seu plano. Colocou-me diante de alguns problemas dizendo que eram apenas problemas rotineiros e então ela notou que sem a pressão do “valendo nota” eu melhorava consideravelmente na resolução dos problemas. Ao perceber minha melhoria no desenvolvimento ela aplicou uma prova “Sem valer nota”, mas na verdade era a minha prova bimestral e então longe do estress que havia gravado, da minha incapacidade, teve uma grande surpresa no final da tarefa.
Eu quase havia gabaritado a prova, pois estava ciente que eram apenas exercícios rotineiros e que não custava a minha pele em casa. Ao minha professora perceber o resultado chamou minha mãe e conversou com ela sem que eu soubesse relatando o acontecido. Na entrega dos boletins tive a maior surpresa da minha vida.
Minha professora veio conversar comigo e mostrou minha prova.
- Viu Marcelo a sua prova, estou com ela em mãos – Minhas mãos gelaram – E eu tenho algo para lhe dizer. Quando ela falou isso eu já esperava uma repreensão. “Você precisa estudar mais”, “Você precisa ficar quieto nas aulas, prestar mais atenção” e toda aquela ladainha de sempre.
E com as minhas emoções lá no alto ela me falou frases que nunca mais saíram da minha memória e do meu coração. “Marcelo, você foi a melhor nota da sala neste bimestre”.
Eu não acreditei. Minhas mãos tremeram eu fui para o céu. O Patinho feio da matemática era o cara do bimestre. Minha nota era a mais alta, eu não era um burro. Eu consegui o inalcançável. Minha professora mostrou minha prova. Não era uma coleção de X vermelho dizendo. Você não sabe! Você não consegue! Você não pode! Você não faz parte desse mundo! Era tudo real. Eu consegui com meu cérebro atrofiado para matemática, mas pela primeira vez na vida e me senti diferente, especial, pois ser especial era saber que eu podia assim como meus outros colegas, desenvolver a temida e odiosa matemática... era eu mesmo?
Minha professora me explicou que eu devia vencer o medo da matemática. Que diante de situações em que pediam uma resposta direta e de comprometimento, quando valiam notas, minhas emoções não me deixavam raciocinar e então eu falhava porque minha mente estava condicionada a isso. Desistir de encontrar uma solução era mais fácil do que achar uma solução para os problemas matemáticos. E com as emoções negativas vinham as convulsões. Você precisa vencer a matemática, vencer as convulsões e procurar sua saúde e felicidade. Agora você sabe que é possível!
Descobri que a resolução da matemática exige tempo, raciocínio, lógica e principalmente que eu aquietasse meu coração para ouvir o que estava no meu cérebro, mas eu não escutava.
Daquele dia em diante, tudo na vida era uma grande equação matemática esperando uma solução. Fugir das responsabilidades jamais seria uma opção sabia. A vida nos leva muitas vezes a momentos de tensão, esperando uma resposta da inteligência lógica, que se tiver uma inteligência emocional medíocre, vai engessar nossas ações. Vai embaçar a imagem do quadro da vida,  a mente e a alma vão sentir as dores dos problemas psíquicos e a vida poderá perder a cor, a alegria, a vontade de viver.
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Você pode! É o que minha professora quis me dizer. E os relacionamentos de carinho, dedicação e afeto dessa professora me mostraram que se ela tivesse desistido de mim jamais eu poderia escrever esse texto. A escola é um templo para a felicidade e principalmente para a resolução de problemas.
Não podemos nos abater diante dos problemas que esperam uma solução. Alguns problemas matemáticos são simples. Outros complexos. Algumas vezes teremos respostas imediatas. Outras levarão mais tempo. E alguns problemas talvez ainda não tenham resposta, mas quem sabe a resposta que está em você ajudará a resolver o meu problema. Porque tudo na vida é uma questão de comunicação, de entender o outro, de ver as coisas com outros olhos e principalmente, tudo isso é maravilhoso pelograndioso poder dos relacionamentos.
Minha professora me salvou e quero responder a esse ato de carinho dizendo ao mundo. Você também pode e educar é uma grande aventura... Você gostaria de fazer desse sonho um projeto de vida? Então seja bem vindo ao projeto “Minha Escola Minha Vida!”.
Gostaria de agradecer minha Professora do primário, Nair Cosman por me fazer um menino feliz e um homem mais completo.
Até a próxima história pessoal!

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